Temática

 

CINEMA EM REAÇÃO REINVENÇÃO NA CRISE

O cinema é uma forma em reação. Quando na ficção se grita “ação” no set, o que sucede o comando são reações (dos atores, da equipe), por sua vez resultantes de uma produção/planejamento e de uma roteirização/intencionalidade. O cinema desde sempre carregou em muitas de suas manifestações uma evidência de seu desejo de agir/reagir. De alguma forma, de intervir na vida, para contrapor ou para conservar.

O cinema reage a uma ideia inicial transformada em arquitetura de cenas e narrativas. E essa ideia é, também, de modo direto ou enviesado, uma reação dos criadores à vida. Reagem à observação do mundo, a uma reflexão sobre algo da existência, deles ou de outros seres, não sem o trabalho da imaginação investido nessa reação formal.

Reação é um conceito físico da Terceira Lei de Newton (Ação e Reação). Está centrado nos afeitos de atritos entre corpos. Nenhuma energia empregada em uma ação fica sem resposta do corpo afetado por essa ação. Poderia ser também considerada a condição número um da política: o efeito dos atritos entre posições diferentes em um mesmo espaço de convivência. Nem sempre, porém, se reage. Nem na política, nem na sociedade.

Embora as apropriações dos termos por grupos específicos resultem em perda dos poderes das palavras, associando-as a um único sentido (em geral, pejorativo), reação não é exclusividade dos reacionários. É uma condição da vida, da natureza e do ser humano. Pode ser também uma condição social, em menor ou maior grau, dependendo dos espaços possíveis de reação e, claro, da intensidade do controle a uma possível resposta.

O ano de 2016, principalmente no Brasil, mas também em outros países, foi marcado por reações. Pode-se dizer que, em outros anos, décadas e séculos, as reações sempre existiram, com variações de agentes, razões e consequências. Nenhuma novidade, portanto, em 2016. No entanto, novidade, em 2016, houve sim.

Porque nunca as reações estiveram tão vinculadas à tecnologia, especialmente à internet, às redes sociais mais especificamente. Isso de forma nenhuma significa reações estritamente virtuais. Nem sempre estritamente virtuais, ao menos. As reações nas ruas ou em lugares fechados, por meio de ocupações, manifestações, acampamentos e encontros de grupos de discussão, também foram marcantes em anos recentes.

Por outros lados, restritas ou não à internet, as reações polarizaram- se, de todos os lados, mais por uma guerra de slogans do que por inteligência de princípios, de interpretações e de análises, tornando qualquer questão de natureza política – partidária ou comportamental – uma batalha de “categorias redutoras”, com coxinhas e mortadelas se mordendo virtualmente, com os ódios adiante da política.

Num mundo de contradições explícitas disfarçadas de coerências inabaláveis, ter uma atitude política tornou-se, acima de tudo, usar palavras belicosas em coro contra ou a favor de algo (mais contra que a favor), resultando em uma gritaria de lado a lado, de um lado contra todos os outros, sem propostas concretas e viáveis de transformações.

Motivos existem para as reações, do suspeito cartão vermelho à presidenta eleita até as mudanças na legislação trabalhista, da redução de investimentos em setores fundamentais até as progressivas relações perniciosas entre governos, políticos e empresários, da insistente preservação dos machismos generalizados às persistentes violências contra as identidades e práticas sexuais diversas da heterossexualidade.

O ano de 2016 foi marcado por reações e crises políticas de modo amplo, desde as de governos e instituições federais – em guerra entre si – até as de segmentos hegemônicos e minoritários da sociedade civil, uns e outros em luta pela preservação ou reconfiguração dos lugares de poder, dos direitos dos indivíduos e de grupos. A justa representatividade, mais equânime, tornou-se uma bandeira. Demorou!

E a reinvenção?

O cinema tende a reagir também a essas ebulições sociais. Tiradentes destacou-se nos últimos 10 anos por assegurar um espaço para os espíritos e práticas independentes, ou dependentes acima de tudo da paixão em grupo pelo fazer cinematográfico, como reação alternativa aos modos formais e de produção considerados convencionais (editais, leis de incentivo, concursos de roteiro).

Não se reagiu nesses filmes ao dinheiro empregado nos outros filmes, como se não fosse necessário, mas aos tipos de cinemas feitos com esse dinheiro e ao fato de esse dinheiro não contemplar propostas mais radicais e supostamente de menores possibilidades de comunicação. Reage-se às políticas de financiamento com filmes apenas parcialmente financiados ou completamente gestados com dinheiros paralelos aos editais.

Um filtro formal é a natureza de um festival de cinema, ao menos para como pensamos Tiradentes. Em um momento de um cinema em reação aos diversos estados da sociedade, esse filtro, com todos equívocos nele possíveis, torna-se nosso modo de intervir política e esteticamente na atividade do cinema autoral e independente, de curta e de longa, procurando defender espaço para os filmes para além do sintoma contemporâneo.

Entendemos e defendemos todas as lutas políticas e reações dos grupos de vítimas dos diferentes níveis dos mecanismos sociais cerceadores de direitos e de individualidades, mas defendemos acima de tudo uma resistência à banalização no cinema de certos modos de abordagem ainda primários e precários, justamente com a proposição de filmes que procuram atravessar as pautas políticas imediatas com respostas formais de cinema.

Os estilos e conteúdos cinematográficos não podem estar legislados por governos ou pela sociedade, como se o cinema tivesse de ser um prestador de serviços sociais e de ajuda subjetiva a um espectador ao mesmo tempo cidadão e cliente, que pode agir como fiscal do que pode e não pode nos filmes, em alguns casos, ou reclamar do investimento de tempo em dinheiro em uma obra da qual discorda como postura. Parte da força do cinema está em não atender e em não concordar com seus espectadores.

É um bom momento para se reinventar e se realimentar a relação entre o cinema e a vida, entre o cinema e o mundo social, entre o cinema e a política, entre o cinema e o próprio cinema. Um bom momento porque momento difícil, de tomadas de partido, de responsabilidade por posições assumidas. Um bom momento para se decidir se, neste momento de politização e polarização crescente, queremos um cinema de respostas fáceis, com as palavras certas e as atitudes com vistas ao consenso progressista, ou se queremos um cinema mais turvo, com mais relevo, com mais desejo de nos deslocar, de nos dar rasteira e de se colocar no limite do dissenso. Com tons mais graves ou não.

Muitas cinematografias surgiram no século XX e no começo do século XXI em momentos complexos e complicados de sujas sociedades, seja na Alemanha do pós-I Guerra, na Itália durante e após a II Guerra, no Japão após a II Guerra, no Brasil sob regime militar nos anos 60, na Argentina fraturada pela crise econômica e social no fim dos anos 90. O grande cinema político, historicamente, foi alimentado pelos colapsos.

Isso pode significar que, longe de ser algo isolado a um segmento de cinema de um único país, ainda mais longe de ser uma ideia de Tiradentes em 2017, reação com reinvenção parece ser o grande desafio de um novo cinema a ser realizado e enfrentado nos próximos anos em diferentes partes do mundo.

Um cinema consciente de que existe uma batalha de valores, de princípios e de modos existenciais dos indivíduos e modos sociais coletivos em disputa nas mais altas escalas de poder. Um cinema com a responsabilidade de, com essa consciência de seu tempo, encontrar os modos mais pertinentes, mais por dentro das possibilidades formais.

Na programação de Tiradentes 2017, há muitas reações às enfermidades conservadoras e aos retrocessos em andamento, muitas respostas dos filmes ao mundo. Já a reinvenção, o senso existencial de sempre se renovar a partir do existente, de sempre se inventar a partir do que já se viveu e experimentou, precisa ser inventada. Filme a filme. Equipe a equipe.

É uma reinvenção de contornos amplos. Vai dos modos de produção e de relação com o dinheiro público até os olhares direcionados a grupos ainda pouco representativos na realização de cinema. Não existem  anuais ou manifestos que determinam esta ou aquela escolha de cinema. Cabe aos criadores descobrirem seus caminhos. Não estão prescritos, sequer legislados.

Em Tiradentes 2017, a reinvenção começa, inicialmente, por uma estatística. Havia 33 filmes dirigidos por mulheres inscritos entre os 157 longas. É 21% do total. Já entre os selecionados, há 12 longas dirigidos por mulheres, 41% dos selecionados. Nos últimos 10 anos, tem aumentado, ano a ano, entre os inscritos e selecionados, o volume de filmes de mulheres. Não tem aumentado o percentual de inscrições, estacionado entre 15% e 20% do total das inscrições.

Ao longo de 2016, no universo de 144 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em São Paulo, também 20% foram dirigidos por mulheres. O número de filmes com roteiristas mulheres passa de 30%. O de filmes com montagem e fotografias de mulheres fica abaixo de 20%. O aumento de proposições femininas, com filmes sobre mulheres ou sobre qualquer outra coisa, deverá implicar algumas mudanças. Não podemos esquecer que, por outro lado, a presença de homens e de mulheres negras nessas posições de comando na criação ainda é menor que o de mulheres brancas e, embora os filmes não possam ser valorizados apenas por quem os propõe, uma maior diversidade de diferenças entre proponentes pode tornar esse cinema mais vigoroso em suas reinvenções.

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Foto: Leo Lara; Universo Produção

Cleber Eduardo
Crítico de cinema e curador da Mostra de Cinema de Tiradentes